Corria da chuva, ela, a senhorita respeitosa. Entrou afoita na livraria, molhada, cabelos com gotas de desejo. Olhou, folheou, olhou, pensou em comprar, mas desistiu. Foi ao banheiro. Abriu a porta, olhou-se no espelho, descabelada, de desejo. Sentou, fez o que deveria e à procura do branco achou algo que não esperava. Afoita, abriu, jorrou aquela água em suas partes que agora está molhada: de prazer.
quinta-feira, 23 de outubro de 2008
domingo, 19 de outubro de 2008
Assobiar ou chupar cana
Querida Lena, não será a primeira nem a última!
Mas, me parece que sua aflição é desnecessária! Afinal, pelo que entendi, você não tem pais, não trabalha e vive isolada do mundo. Isso quer dizer que não tem ninguém pra te infernizar o juízo! Aliás, de onde vem essa história então? Enfim...
Outra coisa: mesmo que tivesse, vivemos no século XXI, pós-modernidade, tempo de descoberta científicas e era da liberdade individual e sexual. Ora, cada macaco no seu galho querida!
Porém, você há de concordar que mesmo com toda essa liberdade, é um tanto difícil conciliar esses sentimentos. Como você consegue pôr ordem nesses desejos tão quentes e inusitados!? Eu não saberia lidar!
E também, lembre-se que aquela que quase ruína, ascende novamente e está aí para inventar novas regras e revisar - impor - valores outros.
Então libertina amiga, vai ficar difícil assobiar e chupar cana ao mesmo tempo não é!?
Cuide-se e boa sorte!
terça-feira, 7 de outubro de 2008
"Canção"
O homem

No palco era um desses grandiosos artistas. Vivo. Talentoso. Presente. Sentia-se implacável quando representava. Na vida, era um desses homens fracos. Tímido. Isolado. Trancava-se todas as tardes no seu quarto. Odiava o sucesso que não te pertencia. Aquele por quem mulheres atiravam-se aos gemidos queria que sua vida fosse uma. Mas, os dois não lhe cabiam.
Pequeno conto produzido baseado em "Um homem célebre" de Machado de Assis.
domingo, 5 de outubro de 2008
Elo

O prego na parede descascada agora pode ser visto.
O painel de fotos acumula a cada dia ímãs sem utilidade.
A porta ganha um espaço marrom indesejado.
A gaveta quebrada guarda a família feliz.
Em cima do armário, caixas, cartas, sonhos e bonecas se escondem.
As roupas já não estão mais no cesto.
A água já não poderá mais ser bebida em verde e preto.
As vozes já não cantam no mesmo ritmo. Outras desafinam profudamente.
Tudo muda. Tudo passa. Tudo cura. Nada...
E o vazio deixado por algo que, talvez, já não preenchia.
Talvez.
Essência

Sentindo a brisa refrescar o rosto e a melodia invadir os poros, lembro daquele que me faz essência. As antigas lembranças de conversas infindáveis recobrem minha mente como um manto quente numa noite fria. Cartas repletas de juras e a saudade de alguém que nunca tocou representam o desejo de viver um paixão jamais imaginada.
Os quilômetros que nos separam são apenas uma das formas de nos manter vivos e solitários no mundo particular de ilusões e fantasias. Essas milhares de ruas vão se diluindo diante da vontade louca que os corpos têm de se encontrarem.
Com o tempo pensávamos estar curados dessa sede de calor e abrigo, mas o desaparecimento das ruas nos fez ainda mais cúmplices e completos. Somos como o sol e a lua: dividimos o mesmo céu e os mesmos olhares.
Olhares: negros como o infinito e verdes como o nascimento.
O envolvimento dos corpos se confunde com a entrega das almas tão sensíveis e fortes.
De repente nos sentimos como criaturas inseparáveis, destinadas ao furor dos sentimentos que, em algum momento, se tornaram o combustível da vida.
E mesmo que ainda quilomêtros venham a nos separar, seremos para o outro: essência.
"Mas onde se deve procurar a liberdade é nos sentimentos. Esses é que são a essência viva da alma."
Goethe
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