quinta-feira, 22 de janeiro de 2009
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Dona Só. 67 anos, viúva. É o que todos apostam. Tem cabelos ruivos, com cachos nas pontas. Pele branca, repleta de sinais no colo, olhos sem rumo e boca cerrada.
Vive sozinha num apartamento com vista para o mar. Não fala com ninguém, a não ser com uma estátua que embeleza sua sala.
Dona Só sai todas as tardes, sempre no mesmo horário, às 16:45, para caminhar na areia cinzenta da praia do Sossego. Ela caminha de cabeça baixa, cabelos presos e sempre, sempre com a mesma roupa.
Todos os vizinhos e transeuntes fitam os olhos curiosos nessa senhora que ninguém sequer sabe o nome. Todos a chamam de Dona Só. Foi uma maneira de aproximar ela da realidade cotidiana e da vida de cada um. Ela faz parte das conversas nas mesas de jantar, nas rodadas de dominó, nos bares...
Passados 35 minutos, Dona Só volta em direção ao prédio que mora. Entra, faz com a cabeça para o porteiro e sobe pelas escadas. Não, ela não mora no primeiro andar. São cinco lances de escadas que separam o hall do prédio do seu apartamento.
Como em um ritual, ela apaga as luzes, acende um incenso, liga sua vitrola herdada do pai e ouve Paulo Vanzolini cantar sua Ronda. Assim ela faz todos os dias. O mesmo horário, a mesma roupa, o mesmo ritual. Há sete anos ela vive assim.
Depois de um banho de banheira, ela senta na sua varanda, olha as ruas movimentadas e lembra da sua juventude agitada, que contrasta com seu presente mórbido e curioso. As luzes da cidade se apagam e apenas ela não dorme.
O que ilumina agora é a ponta do cigarro preto que ela não deixa apagar.
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