domingo, 30 de novembro de 2008

Eles


Ela queria poder dizer a ele tudo o que está dando voltas dentro de si. Seu corpo inquieta-se quando sente seu cheiro, suas mãos perdem-se em meio a tantas palavras ditas em nenhuma ordem.
Ele não percebe, mas ela esforça-se a todo momento para esconder a verdade, não a falsa, a verdadeira verdade sobre seus sentimentos.
Tem medo de estragar toda a beleza que os envolvem, dissolver todo encanto que existe. Qualquer coisa que ela disser, poderá afastá-lo. Se ela disser a verdade, a verdadeira, o perderá. A outra verdade, a falsa, é que se amam como grande amigos.
Ela não quer perder as conversas saudáveis, as gargalhadas gostosas, as lamentações desnecessárias que, às vezes, a incomodam, mas é o que mantém ele perto dela.
Será que os outros têm razão quando dizem que eles são dois bons fingidores? Será que é tão óbvio assim, mas eles não conseguem enxergar? Mas do que eles estão fugindo? A quem eles estão enganado? Vá lá. De quem ela está fugindo, quem ela está enganando, o que ela quer...no singular.
Ela gostaria de poder fazer todas essas perguntas a ele. Embora deseje que nada mude nessa história.
"O que ela quer então?", vocês devem estar se perguntando. E eu lhes respondo: amar. Ela quer amar.
Só isso.

domingo, 9 de novembro de 2008

Desassossego


Faz calor no cômodo,
Destinado a ser meu quarto
Suor por todos os cantos
Palavras cansadas transpiram

Desesperadas
Paredes escorrendo
Derretendo os corpos impregnados

Por paixão
As mãos perdem-se lentamente
Disfarçam sentimentos e realidades
Os olhos murmuram cegos suspiros


Aos poucos vou adormecendo
Relaxando os sentidos
Vejo a cortina negra se fechando
Tateio o pano da cama e calo o sono
Encontrando a profunda solidão.


Palumbo Guedes e Iaiá Pereira.

Paredes da infância


Nos cantos do quarto os cupins consomem silenciosamente o sossedo da mãe recém parida.

Nos cabides, o vestido caipira queimado na barra pela fogueira, ao lado o chapéu de palha velho do avô que já não mais está para carregar no colo.

No porta retrat0, as palmas dos 15 anos ainda batem em cima da estante.

Nas gavetas, as roupas amarelas e azuis de bebê protejidas pela naftalina branca guardam a vida do filho que não veio.

Nas paredes cruas, a água escorre deixando além de cruas, pretas, as paredes nuas.

Em mim, o cheiro de café, a cadeira de balanço e o cantarolar dos pássaros.

Jardim da saudade


Quero viver aqui quando os anjos me abençoarem com o nobre destino.
Quero caminhar por entre nomes velhos e desconhecidos, sentir cada aroma exalado das cores.
Quero ouvir os ruídos dos passos calmos e pesados, das pás, das enchadas, dos relatos.
Quero falar com aqueles que não me ouvem, gritar o silêncio iluminado.
Quero pegar sem sentir,
Sentir sem ver,
Ver sem tocar.
Quero atravessar a ponte que liga o visível ao misterioso.
Quero, nada mais que...descanso.