quarta-feira, 22 de abril de 2009

O movimento do silêncio


Passearam de bicicleta pelas ruas abandonadas do subúrbio. Depois de meia hora ele pediu que voltassem para casa, pois o sono já estava roubando suas forças. Ao chegar, seus corpos banharam-se deliciosamente nas águas frias do inverno.
Conversavam descontroladamente. Jantando, cada garfada era intercalada por um riacho de palavras que se perdiam a cada nova mastigada.
- Vou dormir. Disse ele.
- Você sempre sente sono quando está comigo. Desabafou.
Neste momento o silêncio fez-se mar, afogando toda e qualquer palavra. Ele não disse nada. Apenas um olhar que invadiu o corpo dela como um arrepio.
Entrou no quarto, fechou a porta com cuidado que não deu para ouvir o ranger que tanto os incomodam. Parecia que nada havia acontecido.
Ela lavou os pratos como todos os dias. Era, talvez, o momento de deixar junto com a água a raiva descer ralo abaixo.
Enquanto ela estava no sofá, ele foi até a sala, pegou um CD e voltou para o quarto. Tudo em fração de segundos. Desta vez, apenas encostou a porta.
O volume alto que soava do quarto a conduziu até lá. Deitou-se ao seu lado, mas de costas para ele. Quieta, conseguia ouvir sua respiração inquieta, seu corpo acordado e sua voz baixa cantarolando. Talvez desejasse adormecer.
Depois de muitos movimentos, ela percebeu que ele já não estava mais de costas. Com uma coragem envergonhada, virou-se e ficaram frente a frente. Ela o olhou intensamente, provocando o despertar dele, como o magnetismo de um ímã. Abrindo os olhos, ele se assustou com a expressão que estampava o rosto dela. Então fechou os olhos. Ela já não mais conseguia. Ele abria e fechava. Abria e fechava. Seus olhos não resistiam mais.
Ficaram se olhando durante longos minutos. E quando ela raramente fechava, sentia que ele a observava, esperando o instante em que novamente trocariam sutilezas com o olhar.
Os olhares foram ficando cada vez mais impetuosos. O calor dos corpos difundia-se no quarto, substituindo o frio que antes havia.
A perna dela lentamente foi encostando-se na dele. Seu pé deslizava na perna grossa e cabeluda como se estivesse descobrindo algo desconhecido.
Sem resistência, a perna dele se enroscou na dela. Quatro pernas pairando no ar como tentáculos de um só polvo.
Aos poucos pernas e pés iam tocando outras partes do corpo, explorando cada pedaço de carne, cada parte de desejo.
Ela tentou tocar no seu rosto e ele fugiu.
Ficaram feitos gato e rato, fugiam do outro em cima da cama que era naquele momento um tabuleiro. Duas peças jogavam eroticamente com seu desejo.
Depois de perdas e ganhos, empataram num beijo que era apenas parte do jogo.
Vai... Vem... Vem... Vai... E o CD tocou mais duas vezes.
- Vou dormir. Disse ele.
- Boa noite meu bem.

De costas para o outro dormiram levemente. De tabuleiro a cama voltara a ser um leito de amor.

4 comentários:

v. disse...

Suspirei aliviado.

Lindíssimo, meu bem.
beijos.

Ana Luisa Barral disse...

"Neste momento o silêncio fez-se mar, afogando toda e qualquer palavra"

Muuuito bonito, parabéns moça!

Nelly Chagas disse...

Quando li aqui no blog gostei, depois quando formou o esquema de leitura na sala tbm gostei...rsrs...tah mara...depois coloca as alterações sugeridas.bjin

Manoel Neto disse...

Que delícia!!!
aiai viu Iaiá!!!



Te amo!!!