quinta-feira, 16 de abril de 2009

Uma certa viagem


Meia noite. As estrelas brilham no céu. O vento assobia a melodia da madrugada. A Maria fumaça segue em frente. Meia noite.
Por entre os corredores: silêncio. Braços e pernas desconhecidos tocam-se inocentemente com o balançar dos vagões. Pessoas cansadas à espera do acaso.
Uma mulher, jovem, de bustos fartos e boca rosada, fuma incessantemente...Um cigarro após o outro...E a fumaça vai embora pela janela de onde nada se vê.
Ela não se move. Fica parada a olhar para o horizonte. E se não fosse pelo movimento do braço ao levar o cigarro à boca, poderíamos pensar que se tratava de uma boneca: de tão bonita, de tão quieta, de tão muda e tão suave. Uma boneca.
Muitos dormiam. Inclusive o boticário Ferraz. Esse, um homem mais velho, por volta dos seus 50 anos. Cabelos grisalhos, barba grande, bigodes e sorriso encantador.
Estavam sozinhos ali. Ela não dormira durante toda a noite. E de tanto observá-la, o boticário acabou por adormecer. Era confuso observar uma linda jovem que mesmo estática possuía alguma grandeza de movimentos. Era uma ansiedade descontrolada. Cada cigarro parecia a possível queima de um pensamento.
Passadas algumas horas, o boticário acorda e surpreende a jovem que se assusta com o despertar agressivo daquele homem que ela acabara de descobrir. Ainda não o tinha visto. Era como se estivesse sozinha nesta viagem.
Ao olhar para ele, ela deixa cair o cigarro. Parece que finalmente algo desviara sua atenção: o sorriso de um homem. Uma boca grossa, morena, dentes grandes de um predador. Bastou que ele entreabrisse os lábios para que ela, sem nenhum pudor, passasse para o lado do homem que despertara sua atenção. E seu desejo.
Olhou para os lados e viu que todos dormiam. Sentiu-se mais uma vez sozinha naquele trem. Mas agora ela não estava só, estava a sós. Sem nenhuma demora arrancou do boticário um beijo que o fez paralisar. Beijaram-se por longas horas...Até que o dia amanheceu.
Constrangido o boticário diz:
- Senhorita...Desculpe-me...Mas...Como se chama?
- Desculpe-me senhor! Ela sorri. Tenha um bom dia!
Ela pega sua bolsa, despede-se com um adeus breve e um sorriso sedutor. Ele ameaça ir atrás dela, porém se sente repelido por aquela beleza que só conseguira ver ao nascer do dia.
Quando recuperou o fôlego, sentou-se novamente e percebeu que ela havia esquecido uma caixa. Ele abriu e viu que eram seus cigarros que tanto os acompanharam durante a noite.
Por um segundo pensou em entregá-la pela janela. Mas Angélica já havia desaparecido.

Um comentário:

Poetinha Feia disse...

Olá Iaiá!!!

Demorou, mas arrasou!!!

Eu queria ser essa mulher jovem, linda e decidida.
Que bela história!!!

Uma felicidade tão grande invadiu-me que nem consigo concentrar-me para escrever aqui.

Que fantástico!!!

Uauuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu

Sem saber o que dizer...

Parabéns!!!!!!!!!!!!!!

Belíssimo!!!!!!!!!!!!!!

Bjinhossssssss